Nessa
mesma época, eu estudava piano com a mesma professora que dava aulas
para minha irmã e minhas primas. Minha avó tocava bem, sem esforço,
muita vezes de cor. Eu achava lindo isso, tocar sem partitura.
Sempre
gostei de música, mas era um pouco melindrosa... Quando a
professora, que era bastante enérgica, chamava minha atenção por
algum erro, eu ficava mortificada e logo dizia para minha mãe que
não queria mais fazer aulas. Depois, ao ouvir minha irmã e primas
tocando, queria estudar de novo...
Um
dia, ao sair da casa da professora, vi que muitas pessoas estavam
indo e vindo de um terreno grande, onde às vezes se apresentava
algum circo. Esse terreno pertencia a uma senhora que era fazendeira,
mas possuía também muitas propriedades na cidade. Curiosa, fui ver
o que estava acontecendo. Qual não foi minha surpresa quando vi que
era um acampamento de ciganos!
Fui
chegando, com os olhos arregalados, achando tudo muito emocionante:
as ciganas com suas longas saias e tranças, com argolas de ouro nas
orelhas, falando uma língua estranha... Havia um casal de mais idade
que parecia ter autoridade sobre os outros. Havia redes estendidas,
uma barraca circular onde eles tomavam banho, crianças e animais
correndo por todo lado.
A
mulher mais velha, que devia ser casada com o chefe, me viu parada
ali, segurando meus métodos de piano, me estendeu um balde, apontou
para a vizinha e disse: _ Busque água. Sem saber o que fazer,
obedeci... Mas o balde era pesado e eu ainda bem pequena, não
conseguia carregá-lo. A água ia caindo sobre meus sapatos e meias,
os livros de piano ficaram esquecidos em cima do muro da casa da
vizinha.
O
chefe logo percebeu a situação e veio em meu socorro. Um cigano
ainda jovem, que estava indolentemente deitado em uma rede, me
perguntou:
_
Você gostaria de ser cigana?
Eu
respondi que achava as ciganas muito bonitas, com suas roupas
exóticas.
_
Se você quiser, pode ser cigana também.
_
Como?
_
É só casar com meu filho.
Eu
perguntei:
_ Qual?
Ele
mostrou um menininho de uns 3 anos, que corria pelo acampamento
descalço, com o nariz escorrendo, vestindo só uma camiseta, sujo de
dar dó. Achei melhor voltar correndo para casa.
Minha
mãe só ficou sabendo dessa história quando eu já era
professora...
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