Eu
acho que era uma boa aluna, sem ser muito aplicada... Era cheia de
curiosidade, gostava muito de ler e aprender.
Como
terminei os primeiros quatro anos do que seria hoje o ensino
fundamental com 10 anos de idade, não podia fazer o exame de
admissão ao ginásio, que exigia que os candidatos tivessem 11 anos
completos – a cada fase tínhamos que prestar exames, uma após os
primeiros quatro anos, outro ao final do ginásio e outro para
ingressar na faculdade.
D.
Flora, que foi minha professora no quarto ano, abriu um curso
preparatório para o exame de admissão, e como eu não podia começar
o ginásio até completar 11 anos, fui uma das alunas. D. Flora e sua
sócia eram bastante exigentes – a primeira ensinava português e
matemática, a segunda história e geografia, que eram as quatro
matérias do exame.
Um
dia a sócia de D. Flora marcou uma chamada oral – capitais do
mundo. Para mim, era fácil e prazeroso aprender os nomes das
capitais do mundo. No dia da chamada oral, lá fui eu para a escola,
toda animada.
Quando
chegou a minha vez, ela começou a perguntar:
_
Itália?
_
Roma!
_
França?
_
Paris!
_
Inglaterra?
_Londres!
_
Hungria?
_
…
_
Hungria? Repetiu ela.
_ … Não consegui me lembrar.
Implacável, ela abriu a gaveta da mesa, apanhou um punhado de milho
e jogou no chão.
_
Ajoelhe!
Aterrorizada,
obedeci. Naquele tempo, sempre obedecíamos, não havia discussão.
As lágrimas começaram a cair, escorrendo pelo meu rosto, enquanto
os coleguinhas – criança pode ser cruel também – se divertiam
com minha humilhação. E como doeu...
Depois
de algum tempo fui autorizada a me levantar e voltar para minha
carteira. Que sentimento horrível, acho que foi a primeira vez que
me senti totalmente desamparada.
O
tempo passou, fiz o Curso Normal, depois o Aperfeiçoamento, prestei
um concurso para lecionar nas escolas do SESI – naquela época as
grandes indústrias tinham que patrocinar escolas para os filhos dos
funcionários e a população em geral – e passei. Com 19 anos,
comecei a lecionar. Foi uma experiência muito valiosa para mim, uma
vez que as escolas do SESI tinham alto nível e os professores
passavam por um processo de educação continuada, frequentando
excelentes seminários com o professor Cândido de Oliveira durante
as férias, em São Paulo.
Um
dia eu estava caminhando para a escola quando ouvi alguém me chamar
pelo nome. Era minha antiga professora, aquela que ma havia castigado
tão duramente, que estava do outro lado da rua, empurrando um
carrinho de bebê.
Atravessei
a rua para falar com ela e ouvi as seguintes palavras:
_
Rosaly, eu preciso falar com você. Há algo que vem me incomodando a
consciência durante todos esses anos. Quero pedir seu perdão.
Surpresa,
perguntei:
_
Perdão? Por que motivo, professora?
Ela
respondeu:
_
Você se lembra de quando a coloquei de castigo?
_
Como poderia esquecer, professora?
_
Eu sei, fui muito severa, você não merecia esse castigo.
_
Concordo... Mas quem é esse bebê?
_
Meu filho... Eu me casei com um viúvo e agora tenho esse menino.
Um
menino lindo, por sinal, que anos mais tarde se tornou muito amigo do
meu irmão.
Nunca
mais esqueci: Hungria, capital Budapeste!
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