quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Castigo


Eu acho que era uma boa aluna, sem ser muito aplicada... Era cheia de curiosidade, gostava muito de ler e aprender.

Como terminei os primeiros quatro anos do que seria hoje o ensino fundamental com 10 anos de idade, não podia fazer o exame de admissão ao ginásio, que exigia que os candidatos tivessem 11 anos completos – a cada fase tínhamos que prestar exames, uma após os primeiros quatro anos, outro ao final do ginásio e outro para ingressar na faculdade.

D. Flora, que foi minha professora no quarto ano, abriu um curso preparatório para o exame de admissão, e como eu não podia começar o ginásio até completar 11 anos, fui uma das alunas. D. Flora e sua sócia eram bastante exigentes – a primeira ensinava português e matemática, a segunda história e geografia, que eram as quatro matérias do exame.

Um dia a sócia de D. Flora marcou uma chamada oral – capitais do mundo. Para mim, era fácil e prazeroso aprender os nomes das capitais do mundo. No dia da chamada oral, lá fui eu para a escola, toda animada.

Quando chegou a minha vez, ela começou a perguntar:
_ Itália?
_ Roma!
_ França?
_ Paris!
_ Inglaterra?
_Londres!
_ Hungria?
_ …
_ Hungria? Repetiu ela.
_ … Não consegui me lembrar. Implacável, ela abriu a gaveta da mesa, apanhou um punhado de milho e jogou no chão.
_ Ajoelhe!

Aterrorizada, obedeci. Naquele tempo, sempre obedecíamos, não havia discussão. As lágrimas começaram a cair, escorrendo pelo meu rosto, enquanto os coleguinhas – criança pode ser cruel também – se divertiam com minha humilhação. E como doeu...

Depois de algum tempo fui autorizada a me levantar e voltar para minha carteira. Que sentimento horrível, acho que foi a primeira vez que me senti totalmente desamparada.

O tempo passou, fiz o Curso Normal, depois o Aperfeiçoamento, prestei um concurso para lecionar nas escolas do SESI – naquela época as grandes indústrias tinham que patrocinar escolas para os filhos dos funcionários e a população em geral – e passei. Com 19 anos, comecei a lecionar. Foi uma experiência muito valiosa para mim, uma vez que as escolas do SESI tinham alto nível e os professores passavam por um processo de educação continuada, frequentando excelentes seminários com o professor Cândido de Oliveira durante as férias, em São Paulo.

Um dia eu estava caminhando para a escola quando ouvi alguém me chamar pelo nome. Era minha antiga professora, aquela que ma havia castigado tão duramente, que estava do outro lado da rua, empurrando um carrinho de bebê.

Atravessei a rua para falar com ela e ouvi as seguintes palavras:
_ Rosaly, eu preciso falar com você. Há algo que vem me incomodando a consciência durante todos esses anos. Quero pedir seu perdão.

Surpresa, perguntei:
_ Perdão? Por que motivo, professora?
Ela respondeu:
_ Você se lembra de quando a coloquei de castigo?
_ Como poderia esquecer, professora?
_ Eu sei, fui muito severa, você não merecia esse castigo.
_ Concordo... Mas quem é esse bebê?
_ Meu filho... Eu me casei com um viúvo e agora tenho esse menino.

Um menino lindo, por sinal, que anos mais tarde se tornou muito amigo do meu irmão.

Nunca mais esqueci: Hungria, capital Budapeste!

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