Lembram-se
desses relatos na Seleções? Eu gostava muito de lê-los, meu pai
tinha vários livros encadernados, com todos os exemplares desde que
começaram a ser publicados em português.
Muitas
pessoas foram importantes em minha vida e eu jamais as esquecerei.
Hoje vou contar sobre uma senhora muito querida. O nome dela era D.
Aira.
Conheci
D. Aira quando
voltei a morar em São João, com dois filhos bem pequenos. Ficamos
por algum tempo com meu irmão Clóvis e a família dele, antes de
alugarmos uma casa na cidade.
D.
Aira era uma pessoa meiga e gentil, totalmente sensível às
dificuldades enfrentadas pelas outras pessoas. Nunca faltava uma
palavra amiga, um gesto carinhoso, até uma ajuda na hora de lavar as
fraldinhas dos meus bebês – ela ficava ao meu lado, ia colocando
no varal e depois convidava para um cafezinho e um pedaço de bolo!
Onde se encontram pessoas assim? Já sei: no céu.
No
dia do casamento da filha mais nova, Marta, nossa família toda foi
convidada. Meu pai deveria vir de São Paulo, onde ainda morava
depois de terminar o curso de Direito com distinção e prestar o
exame da OAB.
Como
ele não chegava, nos arrumamos – mamãe, meus filhinhos e eu - e
fomos para a festa, que foi linda. Clóvis, minha cunhada Bia e
filhos também foram.
Voltando
para casa, um amigo da família da noiva tirou várias fotos das
crianças. Estávamos felizes, conversando e tirando fotos, quando o
Clóvis chegou. Foi logo segurando meu braço e me afastando dos
outros. Notei que ele estava com os olhos marejados de lágrimas.
_
O que aconteceu? - perguntei.
_
O papai morreu.
Foi
um choque tão grande... Acho que nunca estamos preparados para a
morte de uma pessoa que amamos. Nosso pai era tão amado e admirado
por todos nós. Meu irmão Sérgio me contou que, no mesmo instante
pensou: E agora, para quem vou levar minhas dúvidas?
Papai
teve um enfarte em São Paulo e meu tio Alcides já havia tomado
todas as providências – não conseguiram falar conosco. Clóvis
precisou preparar o carro para a viagem, que naquele tempo levava
quase cinco horas, e fomos para lá. Meus filhos ficaram com nossa
querida Dita.
Estávamos
no velório, com parentes, amigos, colegas de faculdade do papai,
quando vimos D. Aira e seu esposo sr. Geraldo chegando, ainda com as
roupas bonitas que usaram no casamento da filha.
Depois
de todo o trabalho organizando aquela linda festa de casamento,
quando ficaram sabendo do falecimento do papai, não tiveram dúvidas:
fizeram a cansativa viagem e passaram a noite toda conosco.
Tal
generosidade e solidariedade ficarão para sempre gravadas em nossos
corações.
* * * * *
Do
you remember those stories in Reader's Digest? I loved to read them,
my father had several bound volumes with all the issues since they
began to be published in Portuguese.
Several
people were important in my life and I will never forget them. Today
I will talk about a very dear lady. Her name was Aira.
I
first met D. Aira (D.
is the abbreviation of “dona”, a respectful form of address used
in Brazil) when
I moved back to São João, with two very small children. We stayed
for a while with my brother Clovis and his family, before we rented a
house there.
D.
Aira was a sweet and kind person, totally attuned to the difficulties
faced by other people. She always had a friendly word, a tender
gesture, even some help at the time I washed my babies' diapers –
she stood beside me, helped me to hang them on the line and
afterwards invited me to have coffee and a piece of cake! Where do
you find people like this? I know: in heaven.
On
the wedding day of her younger daughter, Marta, all our family was
invited. My father was supposed to come from São Paulo, where he
still lived after graduating from law school and taking the bar exam.
As
he hadn't arrived, we got
all dressed up – my mother, my children and me – and went to the
party, which was beautiful. Clovis, my sister-in-law Bia and children
went too.
When
we went back home, a friend of the bride's family took several
pictures of the children. We were happy, chatting and taking
pictures, when Clovis arrived. He took my arm and began to steer me
away from the others. I noticed that his eyes were full of tears.
_
What happened? - I asked.
_
Dad died.
It
was such a shock... I believe we are never prepared for the death of
a loved one. Our father was so loved and admired by all of us. My
brother Sergio told me that he immediately thought: And now, to whom
shall I take my doubts?
Dad
had a heart attack in São Paulo and my uncle Alcides had already
taken all the necessary steps – they could not reach us. Clovis had
to get the car ready for the trip, which took almost five hours back
then, and we went to São Paulo. My children stayed with our dear
Dita.
We
were at the wake, with relatives, friends, Dad's classmates from law
school, when we saw D. Aira and her husband, Mr. Geraldo arriving,
still wearing
the elegant clothes they wore at their daughter's wedding. After all
the work organizing that beautiful wedding reception, when they heard
of Dad's passing they did not hesitate: they took the long and tiring
trip and stayed
up
all night with us.
Such
generosity and solidarity will never be forgotten.

Nenhum comentário:
Postar um comentário