Meus
pais eram pessoas muito especiais, cada um a seu modo.
Papai
nasceu em Caconde e morou em vários lugares: São Sebastião do
Paraíso, Guaranésia, Guaxupé e Santos, na infância e
adolescência.
Família
batalhadora, moravam todos juntos em uma fazenda de café. Depois de
trabalhar durante a semana, o sábado era o dia de preparar os pães,
bolos, bolachas e biscoitos para serem consumidos durante a semana –
eram chamados de “quitandas”. Papai sempre ajudava a mãe a
colocar e retirar as formas pesadas do forno.
Já
crescido, trabalhou nos negócios da família em Santos até prestar
concurso para o Banco do Estado de São Paulo. Logo se casou, vieram
os filhos, que foram muito bem cuidados.
O
Banespa tinha uma norma que estabelecia aposentadoria compulsória
quando o funcionário completava 30 anos de trabalho. Papai não
queria se aposentar. Tinha muita experiência, energia e saúde para
ficar inativo. Durante um ano escreveu para o governador, dizendo que
gostaria de continuar na ativa, mas não foi atendido.
Um
dia ele me disse:
_
Estou pensando em voltar a estudar.
_
Que boa ideia!- respondi.
Já
contei que ele tinha o hábito de ler “O Estado de São Paulo”
diariamente. Ele era muito culto, gostava muito de conversar, sobre
qualquer assunto.
No
final do ano prestou o vestibular e foi aprovado em
um dos primeiros lugares no
melhor curso de Direito do Brasil, a Faculdade de Direito do Largo de
São Francisco. Sucesso
total, e sem cursinho ou programa especial de estudo! Muito
feliz, foi fazer a matrícula, mas... os documentos dele não foram
aceitos.
Além
de um curso técnico de contabilidade, ele
havia feito o exame de madureza. Concebido
como uma prova de saída do ensino secundário, acaba se tornando uma
prova de entrada na educação superior. Havia prova de Língua
Portuguesa e Literatura Nacional, Matemática e Astronomia, Física,
Biologia, Sociologia, Geografia e História.
Mas
o certificado não foi aceito. Disseram que ele teria que fazer o
supletivo...
Mais
um ano escrevendo para o Magnífico Reitor, mas não conseguiu ser
atendido, então
resolveu fazer outro vestibular, dessa vez na FMU. Novamente foi
aprovado em um dos primeiros lugares e dessa vez aceitaram os
documentos sem problemas.
Acho
que foi uma das maiores alegrias dele fazer o curso de Direito, o
único que ele queria cursar. Um dos melhores da turma, virou uma
espécie de “mascote” da turma. Grupos de estudo se reuniam em
casa, minha mãe preparava cafezinhos, lanchinhos e todo mundo
estudava bastante. Ele se formou com ótimas notas, prestou o exame
da OAB e passou logo na primeira vez.
Saudade
do meu paizinho querido...
* * * * *
My
hero
My
parents were very special people, each in their own way.
My
father was born in Caconde and lived in several places: São
Sebastião do Paraíso, Guaranésia, Guaxupé and Santos, during his
childhood and adolescence.
A
hard working family, they lived all together in a coffee farm. After
working during all week, Saturday was reserved to bake bread, cakes,
cookies and crackers to be eaten during the coming week – they were
called “quitandas”, or baked goodies. Dad always helped his
mother to put in and take out the heavy baking pans from the oven.
Once
he was grown up, he worked in the family business in Santos until he
took an exam to work in the Banco do Estado de São Paulo (São Paulo
State Bank, also called Banespa). Soon he was married, the children
were born, all very well cared for.
Banespa
had a norm that established compulsory retirement when the employee
had worked for 30 years. Dad did not want to retire. He had a lot of
experience, energy and health to be inactive. He wrote to the
governor for one year, saying he would like to continue working, but
he did not get his wish.
One
day he told me:
_
I'm thinking about going back to school.
_
What a good idea!- I answered.
I
have already written that he had the habit of reading the “O Estado
de São Paulo” newspaper daily. He was very cultured man, who liked
to talk about every subject.
At
the end of the year he took the entrance exam and was classified in
one of the first places at the best Law School in Brazil, the Law
School at the Largo de São Francisco. Total success, and without any
preparatory courses or special studies! Very happy, he went there to
enroll, but... his documents were not accepted.
In
addition to an accounting course he had taken an exam for adult
students, called “madureza”. Planned as an exit exam to be taken
at the end of secondary school, it became also an entrance exam to a
higher learning institution. There were tests of Portuguese Language
and National Literature, Mathematics and Astronomy, Physics, Biology,
Sociology, Geography and History. Nevertheless, the certificate was
not accepted. He was told he would have to do the “supletivo”,
the modern equivalent of the “madureza”...
One
more year writing to the Magnificent Dean (yep, that's what they are
called), but he did not manage to be accepted, so he decided to take
another entrance exam, this time at FMU. Once again, he was
classified among the first placers and this time his documents were
accepted without any problems.
I
think one of his greatest joys was to go to Law School, the only
course he wanted to take. One of the best students in the class, he
became a kind of mascot of the class. Study groups met at our house,
my mother would prepare coffee, snacks and everyone would study hard.
He graduated with excellent grades, soon took the bar exam and passed
the very first time.
I
miss my dear Dad...
Que bom ler sobre nosso avozinho Aluízio. Um homem muito bom que deixou para nós o exemplo de uma vida honesta e digna. Nosso avô mostrou o valor do estudo e do bom caráter. Sinto muita saudade dele também. Lembro de visitá-lo no seu apt no Brooklin em São Paulo. Sempre que ia visitar ele pedia a Maria de Souza que fizesse cocada ou doce de abóbora. Ela fazia o doce e despejava no mármore para esfriar e depois cortava em losangos. Uma delicia! Lembro também de ficar na sacada da sala vendo os carros passar enquanto meu avô luta seu jornal. Lembro que quando vinha visitar minha casa mas hora que ia embora andava um pouco e parava para dar um tchauzinho, aí andava mais um pouco e mais um tchauzinho e ia fazendo assim até chegar na esquina. Dava o último tchauzinho e sumia. Sempre sorrindo. Tinha covinhas! Era um fofo meu avô! Lembro também da festa do guaraná no clube foi banco do brasil. Era muito bom! Ele comprava uma caneca para mim e para o meu irmão e agente ia feliz bebendo guaraná a tarde toda! Tinha gincana, íamos ao parquinho. Chegávamos em casa cansados mas era bom demais. Quando acabava iamos para casa já falando da festa do guaraná do ano seguinte... Era nossa tradição ir com o vovô para festa!
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