quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Meu herói / My hero




Meus pais eram pessoas muito especiais, cada um a seu modo.

Papai nasceu em Caconde e morou em vários lugares: São Sebastião do Paraíso, Guaranésia, Guaxupé e Santos, na infância e adolescência.

Família batalhadora, moravam todos juntos em uma fazenda de café. Depois de trabalhar durante a semana, o sábado era o dia de preparar os pães, bolos, bolachas e biscoitos para serem consumidos durante a semana – eram chamados de “quitandas”. Papai sempre ajudava a mãe a colocar e retirar as formas pesadas do forno.

Já crescido, trabalhou nos negócios da família em Santos até prestar concurso para o Banco do Estado de São Paulo. Logo se casou, vieram os filhos, que foram muito bem cuidados.

O Banespa tinha uma norma que estabelecia aposentadoria compulsória quando o funcionário completava 30 anos de trabalho. Papai não queria se aposentar. Tinha muita experiência, energia e saúde para ficar inativo. Durante um ano escreveu para o governador, dizendo que gostaria de continuar na ativa, mas não foi atendido.

Um dia ele me disse:

_ Estou pensando em voltar a estudar.

_ Que boa ideia!- respondi.

Já contei que ele tinha o hábito de ler “O Estado de São Paulo” diariamente. Ele era muito culto, gostava muito de conversar, sobre qualquer assunto.

No final do ano prestou o vestibular e foi aprovado em um dos primeiros lugares no melhor curso de Direito do Brasil, a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Sucesso total, e sem cursinho ou programa especial de estudo! Muito feliz, foi fazer a matrícula, mas... os documentos dele não foram aceitos.

Além de um curso técnico de contabilidade, ele havia feito o exame de madureza. Concebido como uma prova de saída do ensino secundário, acaba se tornando uma prova de entrada na educação superior. Havia prova de Língua Portuguesa e Literatura Nacional, Matemática e Astronomia, Física, Biologia, Sociologia, Geografia e História. Mas o certificado não foi aceito. Disseram que ele teria que fazer o supletivo...

Mais um ano escrevendo para o Magnífico Reitor, mas não conseguiu ser atendido, então resolveu fazer outro vestibular, dessa vez na FMU. Novamente foi aprovado em um dos primeiros lugares e dessa vez aceitaram os documentos sem problemas.

Acho que foi uma das maiores alegrias dele fazer o curso de Direito, o único que ele queria cursar. Um dos melhores da turma, virou uma espécie de “mascote” da turma. Grupos de estudo se reuniam em casa, minha mãe preparava cafezinhos, lanchinhos e todo mundo estudava bastante. Ele se formou com ótimas notas, prestou o exame da OAB e passou logo na primeira vez.

Saudade do meu paizinho querido...

* * * * * 


My hero

My parents were very special people, each in their own way.

My father was born in Caconde and lived in several places: São Sebastião do Paraíso, Guaranésia, Guaxupé and Santos, during his childhood and adolescence.

A hard working family, they lived all together in a coffee farm. After working during all week, Saturday was reserved to bake bread, cakes, cookies and crackers to be eaten during the coming week – they were called “quitandas”, or baked goodies. Dad always helped his mother to put in and take out the heavy baking pans from the oven.

Once he was grown up, he worked in the family business in Santos until he took an exam to work in the Banco do Estado de São Paulo (São Paulo State Bank, also called Banespa). Soon he was married, the children were born, all very well cared for.

Banespa had a norm that established compulsory retirement when the employee had worked for 30 years. Dad did not want to retire. He had a lot of experience, energy and health to be inactive. He wrote to the governor for one year, saying he would like to continue working, but he did not get his wish.

One day he told me:

_ I'm thinking about going back to school.

_ What a good idea!- I answered.

I have already written that he had the habit of reading the “O Estado de São Paulo” newspaper daily. He was very cultured man, who liked to talk about every subject.

At the end of the year he took the entrance exam and was classified in one of the first places at the best Law School in Brazil, the Law School at the Largo de São Francisco. Total success, and without any preparatory courses or special studies! Very happy, he went there to enroll, but... his documents were not accepted.

In addition to an accounting course he had taken an exam for adult students, called “madureza”. Planned as an exit exam to be taken at the end of secondary school, it became also an entrance exam to a higher learning institution. There were tests of Portuguese Language and National Literature, Mathematics and Astronomy, Physics, Biology, Sociology, Geography and History. Nevertheless, the certificate was not accepted. He was told he would have to do the “supletivo”, the modern equivalent of the “madureza”...

One more year writing to the Magnificent Dean (yep, that's what they are called), but he did not manage to be accepted, so he decided to take another entrance exam, this time at FMU. Once again, he was classified among the first placers and this time his documents were accepted without any problems.

I think one of his greatest joys was to go to Law School, the only course he wanted to take. One of the best students in the class, he became a kind of mascot of the class. Study groups met at our house, my mother would prepare coffee, snacks and everyone would study hard. He graduated with excellent grades, soon took the bar exam and passed the very first time.

I miss my dear Dad...
 

Um comentário:

  1. Que bom ler sobre nosso avozinho Aluízio. Um homem muito bom que deixou para nós o exemplo de uma vida honesta e digna. Nosso avô mostrou o valor do estudo e do bom caráter. Sinto muita saudade dele também. Lembro de visitá-lo no seu apt no Brooklin em São Paulo. Sempre que ia visitar ele pedia a Maria de Souza que fizesse cocada ou doce de abóbora. Ela fazia o doce e despejava no mármore para esfriar e depois cortava em losangos. Uma delicia! Lembro também de ficar na sacada da sala vendo os carros passar enquanto meu avô luta seu jornal. Lembro que quando vinha visitar minha casa mas hora que ia embora andava um pouco e parava para dar um tchauzinho, aí andava mais um pouco e mais um tchauzinho e ia fazendo assim até chegar na esquina. Dava o último tchauzinho e sumia. Sempre sorrindo. Tinha covinhas! Era um fofo meu avô! Lembro também da festa do guaraná no clube foi banco do brasil. Era muito bom! Ele comprava uma caneca para mim e para o meu irmão e agente ia feliz bebendo guaraná a tarde toda! Tinha gincana, íamos ao parquinho. Chegávamos em casa cansados mas era bom demais. Quando acabava iamos para casa já falando da festa do guaraná do ano seguinte... Era nossa tradição ir com o vovô para festa!

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