Nessa
época, um dia minha mãe me chamou e disse que gostaria que eu
fizesse uma visita. Eu me espantei e perguntei: _ Sozinha? Ela
explicou então que uma família havia se mudado para São João da
Boa Vista recentemente, e queriam muito que eu conhecesse a filha
deles, que se chamava Luci, e havia ficado cega, depois de ter tido
um tumor no cérebro. Depois da operação, ela não conseguia mais
enxergar nem caminhar.
Eles
moravam perto de casa, era só descer a Rua Olaia, virar à esquerda
e caminhar mais um pouquinho. Quando cheguei, D. Lígia, mãe da
Luci, me abraçou e disse que estava muito feliz por eu ter podido
visitá-los. Levou-me até o quintal e lá vi Luci, que estava
deitada em uma espreguiçadeira, dormindo, com um véu cobrindo seu
rosto para que insetos não a incomodassem.
Eu
me sentei ao lado dela, bem quietinha, e fiquei olhando ao meu
redor. Logo ela perguntou: _ Quem está aí? Respondi que eu estava
lá para visitá-la e disse meu nome. Ela perguntou como eu era,
então fui dizendo a cor dos olhos, do cabelo, e ela pediu para tocar
meu rosto. Delicadamente passou os dedos seguindo meu perfil, depois
disse que estava muito contente por ter uma nova amiga.
Sempre
que possível lá ia eu, descendo a Rua Olaia para visitar minha
amiga Luci. Gostava muito dela, de sua irmã Cecília, dos irmãos e
dos pais, professor Laércio Azevedo, que dava aulas de desenho e
tocava violino muito bem, e D. Lígia. Passávamos horas conversando
e a família toda era muito amável e acolhedora.
Minha
mãe me disse que o estado de saúde da Luci não era bom, e não
tinha um prognóstico favorável. Um dia, cerca de dois anos depois
de conhecer a família Azevedo, eu estava me arrumando para ir à
escola quando o telefone tocou. Minha mãe atendeu e eu a ouvi
exclamar: _ Ah, não! Naquele momento, tive a certeza de que não
veria mais minha amiga Luci.
Essa
foi a primeira vez que uma pessoa querida e próxima se foi. Uma
tristeza imensa. Mas hoje, quando me lembro disso, sinto-me feliz por
tê-la conhecido. O professor Laércio desenhou meu perfil, e guardo
o desenho até hoje.
que bonito...
ResponderExcluirObrigada, Idely. Você foi minha inspiração...
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