domingo, 8 de julho de 2012

Meu cavalinho


Nasci em Campinas, mas nos primeiros dois anos de vida morei em Franca, onde nasceram meus irmãos Ellen e Clóvis.

Como meu pai era bancário, era transferido para outras cidades de tempos em tempos, para assumir novas funções. Em 1944 foi promovido a contador e fomos morar em Piracicaba, em uma chácara na Estrada do Vergueiro. Era um paraíso! Eu me lembro como se fosse hoje das galinhas d'Angola pintadas de branco e preto gritando “tô fraco! tô fraco!” Tínhamos também alguns patos e me encantava vê-los nadando em um pequeno lago. Quando nasciam patinhos eu gostava de segurar aquelas bolinhas amarelas, tão fofinhas!

Uma vez ganhamos dois coelhos, que nos garantiram ser machos. No dia seguinte, a surpresa: muitos filhotes na gaiola! Mais um dia, e outra surpresa: filhotes também na outra gaiola! Um presente um tanto inconveniente...

Mas meu animal predileto era um pangaré aposentado de puxar alguma carroça, que foi logo batizado de Tony, eu achava aquele cavalinho magnífico. Muitas vezes, com dois anos de idade, eu ia até ele com minhas pernas curtas e me pendurava na cauda dele, balançando de um lado para o outro. Acho que ele pressentia que eu era uma criança sem juízo, porque ficava quietinho esperando que eu acabasse de brincar e o deixasse em paz.

Já maiores, ficávamos felizes da vida quando o vovô Sigefredo ia nos visitar. Ele gostava muito de pescar e deixava que o acompanhássemos. Minha irmã Ellen não gostava nada de ver os peixinhos se debatendo e tratava de logo devolvê-los ao Rio Piracicaba! Quando o vovô ia ver o resultado da pescaria, achava o cestinho vazio...

Uma vez, levei um grande susto: estava andando pelo quintal, não mais na chácara, masjá na Rua do Rosário, quando vi que a casa ao lado estava em chamas. No período da 2a. Guerra Mundial, as pessoas às vezes armazenavam combustíveis, que eram racionados. A Guerra acabou, mas os vizinhos ainda tinham gasolina e álcool guardados em casa. Foi assustador, os tambores explodiam e o líquido escorria para a rua, se incendiando. Mamãe quis que fossemos para a casa de uma amiga dela. Nós três nos arrumamos, minha irmã e eu pegamos nossas bonecas e lá fomos nós. Insisti com minha mãe que fosse também, mas ela estava separando o que deveria levar, o que deixar para trás. Felizmente, nada se perdeu.

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