Como
aprendi a ler cedo e terminei o primário com 10 anos, não podia me
matricular no ginásio até completar 11 anos. Sendo assim, D. Flora,
que foi minha professora no quarto ano, sugeriu a meus pais que eu
fizesse um ano de preparatório para o exame de admissão.
Depois
do exame, acabei indo estudar por um ano no Colégio Piracicabano.
Lindo colégio, onde minha avó Elizabeth tinha ensinado antes de se
casar e onde tive bons professores e muitas amigas. Duas amigas foram
também estudar lá na mesma época. Mas a saudade de casa era muito
grande! Cada vez que eu recebia visitas de casa, quando elas iam
embora eu chorava o dia inteiro. Pedi para voltar para casa e estudar
no colégio estadual, no que fui atendida.
Foi
muito bom poder conviver novamente com meus pais e irmãos. Ainda
mais que minha prima Gláucia ficou conosco um ano, porque precisava
colocar aparelho nos dentes, e um dentista local, o Dr. Renê, era um
dos melhores dentistas nesse ramo. Foi muito bom poder passar algum
tempo com ela e a outra prima, Marilena, que às vezes vinha ver a
irmã e nos visitar.
Nesse
ano, uma novidade nos deixou em polvorosa: mais um irmãozinho ia
nascer! Como eu já tinha 12 anos, esperei ansiosamente a chegada
dele. E em julho ele chegou! Mamãe não quis ir para o hospital e
foi auxiliada por D. Noêmia Quaresma, uma parteira muito experiente.
Ele era um bebê muito bonito. Como curti esse irmãozinho! Acho que
para mim ele era um boneco, eu gostava de ficar por perto e cuidar
dele.
Como
ele fazia sucesso! Tínhamos uma pessoa muito querida que trabalhava
em casa, chamada Benedita (Dita). Na cozinha, havia um quadrado com
um cavalinho de madeira dentro, bola e outros brinquedos. Sérgio não
se importava de ficar lá um pouco, olhando a Dita fazer o almoço.
Quando ele se cansava de ficar no quadrado, subia no cavalinho,
estendia os bracinhos e dizia: _ Pega o nenê, Dita!
Ao
lado de casa morava uma família também muito querida. O filho mais
velho era médico, e quando o Sérgio ficava doente ia até a janela
e chamava: _ Doutor, nenê tá dodói! E não é que o médico
atendia? Logo entrava em casa para examinar o pacientezinho.
A
mãe dele, D. Rosa, sempre nos mandava um pedaço de bolo, uma
tigelinha de arroz doce ou qualquer outro quitute que fazia. Gente
muito boa e amiga. Sempre trataram todos nós, mas especialmente o
Sérgio, com muito carinho, como se fosse o neto que não tiveram.
O
Joaquim, marido da Dita, levava o Sérgio para pescar, para passear
de charrete, onde quer que seus afazeres o levassem... A Dita
cozinhava muito bem e sempre fazia, além do trivial variado no
almoço, coisas saborosas para o lanche da tarde, como pastéis,
pamonha, doce de abóbora, de leite, cocada e muitos outros quitutes.
Com minha mãe aprendeu também a fazer bolos, tortas de maçã e de
limão, nossas preferidas.
Lembro
com muita saudade da casa onde moramos na Avenida D. Gertrudes, que
tinha um quintal grande e um pomar que se estendia quase até a
próxima rua. Lá havia muitas frutas: laranjas, limões, maçãs
pequenas e ácidas, nêsperas, uvas brancas, romãs, abacates...
Todos nós gostávamos de brincar no quintal, de subir nas árvores e
colher seus doces frutos.
Apesar
de termos nos mudado de lá há tantos anos, primeiro para São
Paulo, depois para Campinas, nunca vou me esquecer da Cidade dos
Crepúsculos Maravilhosos.
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